Competência Emocional: o choro dos atletas

Escrito há 4 anos 30/06/2014.

O choro de alguns atletas da Seleção Brasileira durante o momento dos pênaltis e também após a partida contra o Chile chamou a atenção de torcedores e da mídia em geral. Essa reação emocional levanta a questão: a seleção está preparada emocionalmente para lutar pelo hexa?

Chorar é uma reação neurofisiológica humana, produzida pela glândula lacrimal e que tem três funções básicas:

• Lubrificante – para umedecer, nutrir e limpar a córnea;

• Reflexa – a um cisco nos olhos, por exemplo;

• Emocional – quando choramos para expressar sentimentos.

“Estudar as diferentes culturas e suas manifestações é a melhor maneira de compreender o que significa chorar”, afirma o professor Tom Lutz, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. “As razões pelas quais as pessoas choram, o momento considerado apropriado para o choro, o que representa – para um homem ou para uma mulher – verter lágrimas em público, tudo isso muda.”

O choro, portanto, pode ter significados diferentes: de alegria ou dor, vitória ou derrota, heroísmo ou fraqueza. Tudo depende da cultura, da época e do sexo dos que choram.

Choramos por estados de:

• Alegria – pelas vitorias e conquistas alcançadas;

• Medo/Preocupação – sobre a possibilidade de derrota;

• Alívio – quando os resultados esperados foram atingidos;

• Raiva/Frustração – quando a expectativa não foi correspondida;

• Tristeza/Decepção – diante das derrotas como a que aconteceu com a Seleção contra o Uruguai na Copa de 1950, em pleno Maracanã.

Fazendo uma breve reflexão, é possível identificar diferentes significados para o choro de nossa seleção. O capitão Thiago Silva, por exemplo, admitiu que a tensão minou a confiança dele antes da disputa dos pênaltis: “Bater pênalti em casa é uma grande responsabilidade e pedi a Deus para não chegar a minha cobrança. Errei dois dos três últimos e… quando o Felipão me perguntou: Você pode ser o sexto?, Eu disse que não. Pedi para ficar como último da lista atrás até do Júlio Cesar. Não estava confiante”, disse o zagueiro.

A autoconfiança é um sentimento que nasce da soma de conquistas e realizações passadas. Michael Jordan costumava dizer: “à medida que alcançava minhas metas, os resultados iam se somando e eu ganhava confiança a cada conquista. Para mim era um trabalho puramente mental”. Portanto, ao focar sua atenção em pensamentos que lembram os erros passados, Thiago produziu o medo de errar novamente.

O MEDO é uma emoção familiar a todos nós. O problema é que ele nos coloca em estado de alerta, através do alarme interno gerado por reações químicas ou descargas de hormônios do estresse (adrenalina e cortisol) capazes de causar sensações físicas como aceleração cardíaca, alteração respiratória, tremor e, nos prepara para “lutar ou fugir”. Portanto, sentir medo é humano, mas é preciso aprender como enfrenta-los e isso é relativamente simples, também indispensável aos atletas de alto rendimento, especialmente nesses momentos de extrema tensão onde a importância da partida encontra a incerteza dos resultados.

Algumas das principais estratégias de enfrentamento referem-se ao aumento da capacidade de:

1) Controlar a respiração – cujo objetivo é regular batimentos cardíacos, diminuir a tensão muscular e regular o nível de ativação interna;

2) Reestruturação cognitiva (substituir pensamentos disfuncionais, negativos e improdutivos) – na prática, Michael Jordan nos ensina que: “o medo é uma ilusão, ele aparece quando pensamos nas consequências de errar ou imaginamos resultados negativos – a técnica é focar no que fazer para conseguir o que se quer”.

Outro aspecto do medo a ser considerado, vem das pesquisas de Brené Brawn, Universidade de Houston, sobre conexões humanas – habilidade de sentir-se conectado: “aprendi que a vulnerabilidade está no cerne do medo e de nossa luta por merecimento, criatividade, pertencimento e amor. É importante coragem, do latim coração – fazer de todo o coração o que tem que ser feito, mesmo sem garantias. Sentir-se vulnerável significa que estamos vivos”. Em resumo, é preciso ter coragem para arriscar mesmo que as chances parecerem mínimas.

No caso de Neymar, David Luiz e Júlio Cesar que também choraram muito depois dos pênaltis é possível perceber que o choro foi de alivio. Com tanta convicção passada pela Comissão Técnica de que a Seleção seria a Campeã, os atletas sentiram de perto a possibilidade de derrota e reagiram a essa condição com profundo sentimento de alivio.

Essa Seleção está emocionalmente preparada para as finais?

Sugiro uma reflexão sobre como atletas se sentem quando atingem seu melhor desempenho:

• Energizados (otimistas e competitivos) – OK

• Ansiedade produtiva (pensamentos de possibilidade de atingir objetivos) – OK

• Relaxados e soltos (baixa tensão muscular) – ATENÇÃO

• Calmos, tranquilos e pacientes (quietude interna) – ATENÇÃO

• Se divertem e têm prazer ao jogar (jogam com alegria) – OK

• Jogam com foco nos fundamentos (passe, drible, cabeceio, finalizações, etc.) – ATENÇÃO

• Mentalmente concentrados (resistem às distrações – externas hino, torcida e internas autocriticas) – ATENÇÃO

• Com autoconfiança (sensação de ‘ser capaz’) – OK

• Controle sobre si mesmo (considerado o maior desafio – controle das emoções medo, raiva, tristeza) – ATENÇÃO

Em qualquer esporte, o êxito ou fracasso é resultado do complexo conjunto de variáveis que integram o momento da competição. Portanto, além da qualidade Técnica, condicionamento Físico e importância Tática, a Competência Psicológica é uma das variáveis que devem ser controladas e pode ser considerada o diferencial competitivo, especialmente nos momentos decisivos, a hora da verdade nas arenas esportivas.

Quem viver…. verá !!!

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